sábado, 24 de agosto de 2013

Ô homem pra dar desgosto


Olá disse Augusto, naquela virada de noite chuvosa, batendo à minha porta.

Quem é que está aí? perguntei, sabendo da resposta, mas querendo adiá-la.

Você sabe bem quem é. Veja bem, querida, você precisa tirar Júlio daí, que agora é minha vez de entrar.

Augusto não entendia. Homem possessivo, esse. Ele não queria entender que eu não o queria. Havia partido, e eu dei graças a Deus. Mas assim que eu consigo coisa melhor, ele resolve voltar. Não era justo.

Augusto, acho melhor você ir embora protestei. Você sempre me decepcionou. Eu tive que seguir em frente.

Querida, eu sei que errei. Mas quero lhe recompensar. Você sabe que Júlio tem que ir embora.

Eu não queria deixar Júlio. Todo dia com ele parecia um feriado. Parecia tudo mais feliz, mais relaxado. Ele me deixava tão alegre que eu não tinha mais olheiras! Augusto não tiraria Júlio de mim. Ele não podia fazer isso.

Você teve várias chances, Augusto. Não vou lhe dar outra.

Você sabe que não tem escolha.

E então arrombou a porta.

Homem possessivo, esse Augusto.

Não quero transformar minha história em um drama; não preciso ganhar sua piedade, leitor. Mas o final você já deve saber. Augusto entrou no quarto, deu uma baita de uma surra em Júlio, chutou ele porta afora e deitou-se comigo no sofá. E nada pude fazer. Eu não poderia fazer nada, a não ser mais uma vez aturá-lo.

Mas todo ano é isso. Não me preocupo muito. Depois de 30 dias, Augusto me abandona de novo.

Onze meses depois, Júlio volta para mim.

Single player

Imagino como é passar um dia sozinha. Mas sozinha mesmo. Sem ninguém torrando a paciência, ninguém pedindo favores, ninguém falando no pé do ouvido. Sem ver, nem ouvir, nem precisar responder a ninguém. Ninguém para me deixar preocupada ou desesperada, como pareço sempre estar. Só eu. Eu, meu consciente, meu inconsciente e meu subconsciente, as quatro partes fracionárias de mim que vão se tornando mais internas e que, quando somadas, formam o que eu sou.

Para esclarecer, não falo no sentido figurado. Estar sozinha no sentido de estar “presa dentro da minha própria massa encefálica” é algo frequente. Frequentemente me vejo vagando por lugares inimagináveis, com pessoas que nem eu mesma conheço, em situações que nunca seria capaz de enfrentar. Completamente normal. Não preciso de mais disso. Quando eu escrevo “sozinha”, eu realmente quero dizer sozinha. Fisicamente. Mas assim, estando fisicamente só, fico psicologicamente e emocionalmente recolhida, também, mas de um jeito que ninguém pode intervir. De vez em quando é bom estar consigo mesmo e só consigo.

Um lugar fechado, no meio do nada, com apenas água o bastante para me manter ativa (porque água é imprescindível), seria o ideal. Não pediria isso por mais de um dia e estaria extremamente satisfeita. Seria a oportunidade para esquecer de que tenho sentimentos e problemas para resolver; seria esquecer do cotidiano, da monotonia, da angústia e das pedras no sapato. Seria genial.

Eu me acharia genial. Acharia todos geniais. Acharia a paciência esgotada, os favores, a falatória, os sentimentos, os problemas, a monotonia, a angústia e as pedras no sapato simplesmente geniais. Tudo seria genial. Depois de esquecer de que tudo existe, você há de perceber que você precisa de tudo.

Inclusive da porcaria da batalhada pausa.

Que, se você parar para observar, também é genial. E assim segue o ciclo.