sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Inocente utopia

Eu tinha aqueles sonhos de criança, de crescer, herdar as roupas da mãe e ser veterinária. Também queria ter um carro rosa, cabelo loiro, usar salto alto e poder passar lápis de olho. Queria ter um namorado igual a Zac Efron. Ah, aqueles sonhos alimentados pela família, que dizia "que lindo". Aspirações infantis, agora extintas. Quando se chega a uma certa idade, as ilusões cessam, e se percebe que dá para contentar-se com muito menos.

Não posso negar que metade do meu guarda-roupa é composta por blusas, calças e sapatos dos quais minha mãe se cansou. Não posso fazer nada se meu estilo se assimila ao estilo que ela tinha. Ela anda bem mais arrumada agora e esqueceu as camisas de Ramones. Estou revivendo sua adolescência. As camisas de Ramones são meu vício.

Mas, além disso, tudo muda. Não quero ser veterinária. Na minha mente, há 10 anos, ser veterinária era alisar vinte poodles e yorkshires por dia, mas, meu Deus, é muito mais que isso. Nem gosto de gatos, quanto mais do resto do reino animal!

Carro rosa é a coisa mais jegue do universo. Já vi um fusca da Barbie, literalmente. Rosa chock com um adesivo da marca da boneca estampado na porta do motorista. Totalmente escroto. E não, não quero mais ser loira. Ruiva, talvez. Pretendo pintar meu cabelo de azul - pelo menos metade. Mas loira, não. Não quero completar o visual Barbie Girl Califórnia Minissaia Verão Mechas Roxas dentro de um carro rosa chock. E salto alto? Não há coisa mais repugnante pra mim. Dói tudo, de pé a coluna. Não sou alta, mas se for pra usar salto, tamanco, sapato de perua ou qualquer coisa do gênero, prefiro meus quase 1,60. Agora que posso usar lápis de olho, só pra completar o visual Mattel, não gosto. Mas com certeza gosto mais que gloss.

E meu namorado não tem absolutamente nada a ver com Zac Efron. Prefiro ele mil vezes; até porque não gostaria de um namorado afeminado. (Se você me falasse que Zac Efron é afeminado há seis anos, eu não sei nem descrever o que faria com sua cara.)

Minha família não acha meus novos desejos e aspirações lindas. Falam que vou passar fome quando digo que quero ser jornalista. Mas fazer o que, certo? Já tenho idade suficiente para não mais me iludir e para perceber que não quero ser o que eu julgava ser bonito um tempinho atrás.

Não culpo a Raquel pirralha. Pelo contrário, eu a venero. Venero os bons tempos de ilusões, sonhos bobos, jogos de tabuleiro, pega-pega etc, quando não tinha que me preocupar muito; só um pouco com divisões matemáticas, o bicho de sete cabeças. Meu Deus, eu não fazia ideia do que era o Binômio de Newton.

Em meio a nostalgias, lembranças, saudades e pé podre depois de correr descalça pelo pátio do prédio, suspiro. Queria dar um pulinho lá atrás e avisar: aproveite. Aproveite mesmo. Não que eu não tenha aproveitado, porque claro que aproveitei. Mas se eu apenas soubesse...

Que vontade de ver High School Musical.