A rotina é uma coisa triste. É a concretização da mesmice, da monotonia, da ociosidade. É o motivo da ausência de criatividade, das crises existenciais, da falta de perspectiva. É uma rara tristeza, porque poucas coisas deixam tanta tristeza quanto a rotina, mas, ainda assim, é uma tristeza genérica – afinal, como evitá-la, não é mesmo!?
Rotina é a pior das companhias. A mesma hora do pi-pi-pi ou pen-pen-pen ou tam-dam-dam dos despertadores de um mesmo celular, a mesma tigela de um mesmo Nescau Cereal O Cereal Radical, o mesmo atraso do mesmo ônibus para ir para a mesma faculdade, ter as mesmas aulas, ver as mesmas pessoas, andar os mesmos passos, suar as mesmas gotículas, ler as mesmas palavras, fazer as mesmas promessas de que você vai tentar conviver com aquilo tudo – aquele mesmo tudo.
Por causa da rotina, parece que todo dia é domingo depois das quatro. Nenhuma expectativa. Nenhuma novidade. O mesmo pão da mesma padaria no jantar. O mesmo travesseiro para deitar a cabeça. O mesmo programa de TV para assistir enquanto você sofre com a mesma insônia. O mesmo pensamento de que, meu Deus, amanhã é tudo igual de novo. E depois de novo. E depois de novo. E aí tem até o final de semana, que, na verdade é só uma ilusão de que, ALELUIA, até a rotina vai descansar por dois diazinhos, mas não é nada disso, não. É só uma ilusão. No final de semana, dá no mesmo. Você faz as mesmas coisas em todos os finais de semana.
A rotina é também assim: faz de você um viciado em previsões. Com a rotina, é agonizante a ideia do incerto. Esquece-se a definição de inovar, também a de arriscar, também perde o sentido aquela coisa de pular no escuro. Torna-se normal enjoar de filmes de aventura. Seu novo hobby é assistir a filmes de comédia romântica, pois, assim como a vida imersa na rotina (e não a rotina imersa na vida), mesmo que você nunca tenha visto o filme, é óbvio que, no final, a mulher vai dar bola para o carinha que ela, por causa do outro carinha de beleza óbvia, rejeitou anteriormente (soa familiar? Pois é. Comédia romântica é assim, mesmo. Familiar. Porque você vê em todo canto. É a mesma coisa). É previsível. E eu sou viciada em previsões. Não gostaria de ser.
Pareço pessimista, sim. Sou. Também posso estar generalizando, sim. Estou. Em um belo dia, por causa de uma reposição de asfalto em determinada rua, o motorista do ônibus acabou precisando mudar a rota. Bem, é uma mudança! Mas estou tão viciada em previsões e na rotina que fiquei nervosa quando percebi que não estava passando pela mesma rua de sempre. Mas não só nervosa: ANIMADÍSSIMA! Por causa de uma simples mudança de itinerário, que duraria apenas uma semana. Noto, assim, que, caso algum dia eu perceba que EI: preciso sair da rotina, estarei em necessidade de tratamento intensivo para conseguir lidar com as mudanças nas corretas proporções e para entender que a vida só se vive mesmo quando nada é o mesmo.
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