segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Rotineiros Anônimos

A rotina é uma coisa triste. É a concretização da mesmice, da monotonia, da ociosidade. É o motivo da ausência de criatividade, das crises existenciais, da falta de perspectiva. É uma rara tristeza, porque poucas coisas deixam tanta tristeza quanto a rotina, mas, ainda assim, é uma tristeza genérica – afinal, como evitá-la, não é mesmo!?

Rotina é a pior das companhias. A mesma hora do pi-pi-pi ou pen-pen-pen ou tam-dam-dam dos despertadores de um mesmo celular, a mesma tigela de um mesmo Nescau Cereal O Cereal Radical, o mesmo atraso do mesmo ônibus para ir para a mesma faculdade, ter as mesmas aulas, ver as mesmas pessoas, andar os mesmos passos, suar as mesmas gotículas, ler as mesmas palavras, fazer as mesmas promessas de que você vai tentar conviver com aquilo tudo  aquele mesmo tudo.

Por causa da rotina, parece que todo dia é domingo depois das quatro. Nenhuma expectativa. Nenhuma novidade. O mesmo pão da mesma padaria no jantar. O mesmo travesseiro para deitar a cabeça. O mesmo programa de TV para assistir enquanto você sofre com a mesma insônia. O mesmo pensamento de que, meu Deus, amanhã é tudo igual de novo. E depois de novo. E depois de novo. E aí tem até o final de semana, que, na verdade é só uma ilusão de que, ALELUIA, até a rotina vai descansar por dois diazinhos, mas não é nada disso, não. É só uma ilusão. No final de semana, dá no mesmo. Você faz as mesmas coisas em todos os finais de semana.

A rotina é também assim: faz de você um viciado em previsões. Com a rotina, é agonizante a ideia do incerto. Esquece-se a definição de inovar, também a de arriscar, também perde o sentido aquela coisa de pular no escuro. Torna-se normal enjoar de filmes de aventura. Seu novo hobby é assistir a filmes de comédia romântica, pois, assim como a vida imersa na rotina (e não a rotina imersa na vida), mesmo que você nunca tenha visto o filme, é óbvio que, no final, a mulher vai dar bola para o carinha que ela, por causa do outro carinha de beleza óbvia, rejeitou anteriormente (soa familiar? Pois é. Comédia romântica é assim, mesmo. Familiar. Porque você vê em todo canto. É a mesma coisa). É previsível. E eu sou viciada em previsões. Não gostaria de ser.

Pareço pessimista, sim. Sou. Também posso estar generalizando, sim. Estou. Em um belo dia, por causa de uma reposição de asfalto em determinada rua, o motorista do ônibus acabou precisando mudar a rota. Bem, é uma mudança! Mas estou tão viciada em previsões e na rotina que fiquei nervosa quando percebi que não estava passando pela mesma rua de sempre. Mas não só nervosa: ANIMADÍSSIMA! Por causa de uma simples mudança de itinerário, que duraria apenas uma semana. Noto, assim, que, caso algum dia eu perceba que EI: preciso sair da rotina, estarei em necessidade de tratamento intensivo para conseguir lidar com as mudanças nas corretas proporções e para entender que a vida só se vive mesmo quando nada é o mesmo.

Reabilitação para viciados em rotina: procuro. Podem entrar em contato.

domingo, 12 de julho de 2015

A história de como...

Esta é a história de 
como
eu
o
queria.
Era uma vez
(ou duas,
ou três)
em que o queria tanto que chorei.
Mas chorar não é nada, não. Todo mundo chora.
Sendo que eu não chorei chorei. Sim, eu também chorei. Mas, além de só chorar, eu chorei por dentro. A minha alma derreteu
uma vez,
ou duas,
ou três,
porque eu o queria. E queria a ponto de minha alma derreter trocentas vezes. Por dia.
Durante vários dias.
Vários trinta dias.
E continuou derretendo trocentas vezes, mesmo que eu me debatesse e dissesse: "Alma. Por favor. Eu não aguento esse calor
e esse ardor
e esse amor;
é um terror."
Me ignorou.
E continuei a derreter. E continuei a chorar trocentas vezes, mesmo que parecesse firme. Eu não estava.
E o pior de tudo, de tudo que podia ser pior entre todos os piores tudos, era o meu não saber sobre um detalhe,
detalhezinho,
que faria toda a diferença: dentro dele, aonde minha alma queria chegar, havia uma alma tão derretida quanto a minha.
Então, finalmente, foi uma vez,
não duas,
não três,
mas uma,
em que finalmente descobri que ele também chorava. Por dentro. Na alma.
E aí até congelei por um segundo,
não dois,
não três,
mas um, só um segundo, um segundinho apenas,
porque havia pressa (muita pressa) 
para que a alma continuasse derretendo.
Não derretendo de chorar, por dentro, mas derretendo por causa da descoberta de que esta nunca foi a história de
como
eu 
queria.
Essa sempre foi a história de 
como 
nós
nos
queríamos;
não uma vez,
nem duas,
nem três,
nem mesmo quatro,
mas todas.
E assim continuará sendo enquanto existir minha alma. Mesmo em estado metafórico de fusão.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

2. ². II.

É amor em dose dupla.
 

Talvez isso pareça nome de filme americano que foi pessimamente traduzido só no Brasil acontece essas coisas, mesmo, e coisa e tal. Mas é amor em dose dupla.

E é amor pra vida toda. E pras vidas seguintes a ela. E pra quando não houver mais vida.

Porque é amor em dose dupla e esse não acaba nunca.

Em dose dupla porque antes de ser amor, já era amor. E amor que era amor antes de ser amor sempre vira amor. 

Não só amor. Vira amor em dose dupla. Esse é o melhor tipo. E é pra vida toda.

É até pra quando não houver mais vida.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Gente que não perde tempo

Eu sou gente do tipo ausente na reunião de condomínio. E não é só isso: eu venho de uma longa linhagem de gente do tipo ausente na reunião de condomínio.
 
Não que sejamos irresponsáveis; não somos. Até porque, algumas vezes, nos ausentamos de reuniões de condomínio para estudar, trabalhar, pagar as contas e coisas do tipo. Mas, claro, esses não são os únicos motivos de nos ausentarmos das reuniões de condomínio.
 
Eu admito, sem pesar, que nós faltamos reuniões de condomínio para assistirmos a séries de ficção científica ou a documentários sobre a Antiguidade. Faltamos para, deitados em nossas camas, lermos clássicos do terror, ou para escrevermos contos fantásticos ou então poesias sobre como é ser boêmio na cidade do Recife.
 
Aí, no dia seguinte à reunião de condomínio, o encontro desconfortável no elevador com a velha engajada do décimo andar, aquela que decora o hall quando é feriado e sabe da vida de todos os amigos condôminos. “Cadê você ontem na reunião, minha filha?” e daí surge todo um roteiro na cabeça, cheio de facetas e mentiras para justificar a ausência. “Eu estava ocupada, estava muito, muito ocupada”. Na verdade, só disse alguma desculpa fajuta para não ficar conhecida como a vizinha alienada que, em vez de ir à reunião, ficou fazendo qualquer coisa inútil em seu apartamento mal decorado – como diria a velha do décimo andar se soubesse que eu não fui à reunião porque estava assistindo a algum seriado de TV, mesmo que nunca tivesse entrado no meu apartamento.
 
Na verdade, verdade verdadeira, eu realmente estava ocupada, fazendo o tipo de coisa que fazem meus parentes ausentes na reunião de condomínio. Alguma coisa definitivamente mais útil que comparecer à reunião de condomínio. Mesmo que fosse só assistir a algum seriado de TV.
 
Mas na verdade, verdade verdadeira, desta vez verdadeiríssima, eu não preciso ir a reuniões de condomínio. Não tenho um apartamento em meu nome. A dona da casa é minha mãe. Neste texto, apenas previ o futuro. Porque, com certeza, assim como ela, como minha avó, como meu avô, como meu pai, como meus tios, como tanta gente que eu conheço – não só meus parentes –, não irei a reuniões de condomínio. É uma preocupação descartável e, eu diria, uma perda de tempo. E tempo é muito precioso para ser perdido com reuniões de condomínio e com a velha do décimo andar.

Talvez eu more em uma casa.

OBS. Não quis induzi-los a nada. Não faltem a reuniões de condomínio.

sábado, 10 de janeiro de 2015

Abdução

Os alienígenas levaram minha criatividade. Não há outra explicação. Porque eu não faço mais nada da vida além de buscar inspiração. Até procrastinando – ou melhor, principalmente procrastinando – eu busco inspiração. A preguiça, o clima, a saudade, a rua, a televisão, o fulano, o ciclano, o beltrano, tudo é fonte de inspiração, e tudo vale a escrita. Tudo vale a reflexão, e eu reflito. Mas não adianta, não. Porque eles levaram minha criatividade.

E eu gostaria de saber os motivos que os levam a abduzir a criatividade. Talvez agora queiram saber sobre a intelectualidade cultural, não mais sobre os aspectos físicos humanos – talvez porque já os saibam. Talvez tenham concluído que o que se opera no interior, o invisível, é, de fato, o que é o homem. Os mecanismos da mente. A solenidade da alma. É disso que se origina o homem, não de partes corporais expostas, físicas, palpáveis. Talvez tenham concluído exatamente isso, coisa que nos falta. O que nos falta é essa conclusão.

Talvez por isso seja dito que alienígenas estão na frente dos homens. O homem falta se concluir.

Os alienígenas levaram minha criatividade. Não há outra explicação.

Ou então ando lendo Stephen King demais.

segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Eis algo para se pensar na solidão da noite

E se a saudade matasse?

Eu estaria sete palmos distante da vida.

Não haveria antídoto certo, nem soro, muito menos comprimido ou xarope que me recuperasse. Nem macumba para me reviver. 

Na despedida, um blues nostálgico, ou talvez um clássico francês. Violetas e tulipas, suco de uva e risoto.

No Paraíso, seja lá o que ele for, eu seria conhecida como aquela, aquelazinha, pobre coitada, desolada, a saudosa. Haveria morte mais morrida?! 

Mas, afinal, se a saudade matasse, meu Deus, quem de nós restaria neste mundo? Nem uma alminha, eu diria, já que a saudade consome ela toda.

Mas, afinal, estou mesmo vivendo? E então surge um debate filosófico, metafísico, transcendental. Isso é mesmo vida? Pois bem, não sei. Talvez nunca saiba. Mas quando é saudade, não parece vida. 

E nada disso de saudade valer a pena. Acho absurdo quando assim dizem. Negócio mesmo é estar junto.

Se saudade matasse, então, já teria partido há tanto...

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Que é ter?

Ter teu amor é ter o mundo.

Por isso, me sinto 
Uma cosmopolita imortal
Embarcando
Partindo
Translando; sem rumo.

Já que não preciso de rumo 
Ter teu amor é ter o mundo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Não sei, não quero saber, só sei que era pra ser; e é

A espera é longa, mas quando é certo, acontece. Sabe?!

Eu sei.

E é louco. É mesmo. Até não parece realidade. Parece aqueles sonhos eternos; não só eternos, mas constantes. Cotidianos. Não só sonhos não controlados; sonhos que distanciam os olhos, a mente, o mundo, enquanto é dia, na viagem de ônibus, durante a refeição. Mas não é sonho, não.

É mesmo.

E é louco.

Mas louco, assim... Louco bom. Louco bom demais. Tão louco que faz a alma arder em conforto.

É verdade, realidade, dá pra tocar e também dá pra sentir, ali, no fundo na mente. Existe. É até meio eletromagnético.

E é louco.

Mas louco, assim... Louco bom.

Louco

bom

demais.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Dá um help, Sandman

(A esperança de deitar e instantaneamente pregar os olhos com Super Bonder: em vão.)

O travesseiro fagocita a cabeça e fica mais quente. A atmosfera é leve, ali: entre cobertas, o corpo adormece, a alma contrai. A consciência se distancia e o dia ali acaba.

Ops. Não. Por algum motivo, não mereço esse prazer. O que pareceu uma hora foram apenas sete minutos.

Sandman me enrolou. Não dormi coisa nenhuma.

Toda posição é desconfortável. Toda sombra é alma penada, todo ruído é motivo de conferir a solidão. O travesseiro engoliu meu cérebro. A atmosfera parece ter, puramente, monóxido de carbono.

Nunca mais cochilo à tarde.

Preciso dormir preciso dormir preciso dormir preciso DORMI.

O que pareceu uma hora foram apenas doze minutos.

A posição me deu dor no pescoço, então mudemos. Calor do cão. Por que a cortina bate? Fome. Preciso cortar as unhas.

Nunca mais cochilo à tarde.

Preciso dormir preciso dormir preciso dormir preciso DORMI.

O que pareceu uma hora foram apenas vinte e quatro minutos.

Ah, Deus, não vou conseguir dormir e preciso acordar cedo. Meu Deus, me deixa dormir. Por favor. Nunca mais cochilo à tarde. Por favor.

De tanto implorar, passo uma hora acordada: preciso dormir preciso dormir preciso dormir preciso DORMI. Mas dormi mesmo. Mesmo, mesmo.

O que pareceu sete minutos foram na verdade 5 horas.

Preciso dormir preciso dormir preciso dormir preciso DESPERTADOR: AULA EM 1h30.

Sério?

Tá. Tudo bem. Não tem problema.

Eu dou um cochilo à tarde.

domingo, 9 de março de 2014

Como diria Sócrates nas aulas de Filosofia

É tão frustrante não saber de tudo.

Certo, sei que é impossível. Não há aquele que saiba de tudo.

Existem os sábios, aqueles que de muito sabem sobre muito, mas não sabem de tudo. Existem os gênios, aqueles que sabem muito sobre algo, mas não sabem de tudo.

Quais são aqueles que sabem de tudo? É o problema. Não são. Não existem aqueles que sabem de tudo.

O quão frustrante é essa situação? São tantas as perguntas para as quais se devem respostas, mas ninguém para respondê-las. 

Seria bem mais fácil se houvesse um indivíduo, qualquer um, para quem pudéssemos simplesmente ligar a qualquer hora e perguntar qualquer coisa. Um indivíduo conhecido como Provido de Conhecimento. "Ei, Provido, de onde viemos?" E ele daria a resposta, precisa e claramente. E acabaria o sofrimento.

Mas não. Provido é inexistente.

Diante das diversas questões para as quais não existem explicações, percebemos que somos um tanto quanto insignificantes. Há um mundo imenso lá fora, ao nosso redor e até mesmo dentro de nós. Um mundo imenso para ser descoberto, revelado, estudado, demonstrado. Um mundo até agora incompreendido. 

É frustrante não poder voltar no passado e confirmar fatos históricos, acompanhar experiências de grandes cientistas, ser testemunha da existência de um Deus ou do processo de evolucionismo biológico. 

Também é frustrante não poder ir para frente, no futuro, e saber do apocalipse e de coisas bem mais simples, como se serei rica ou pobre, feliz ou infeliz, se morrerei com arrependimentos ou completamente realizada. 

Mas uma coisa é certa: ter certeza sobre tudo não deve ser muito bom. A graça de viver é não saber como surgimos e como iremos desaparecer. Não ter conhecimento sobre tudo nos faz ser metade gente; nossas indagações completam a metade. Afinal, isso é ser humano: ser um indagador ignorante.

Além do mais, se de tudo eu soubesse, este texto não existiria. O meu desconhecimento é o gerador de minha criatividade.

Só sei que nada sei. Mas não sei se isso é legal ou não.