Sentada sozinha, completamente deslocada, na mão uma lata de Coca-Cola
com muito gás e há muito quente; um gole e meu cérebro derrete. Na boca, gosto
de queijo cheddar. Nada mal. Nada mal mesmo. Ainda melhor porque lembro que num bolso da
minha mochila há um Twix Xtra esperando por mim.
O sol me queima, mas isso não deveria acontecer. Não na Europa. Por
baixo das roupas, tudo coça. Estou pingando. Não, cadê o frio que me foi
prometido? Pelo amor de Deus. E eu andando por aí com esse casaco triste de
grosso enquanto as menininhas europeias amarram as blusas embaixo dos peitos e
dobram os shorts até mostrar a polpa das bundas. Tudo errado e errado mesmo.
Meu Deus, que mazela. Mexer no celular não adianta, ninguém vai me ligar
se todo mundo está dormindo lá do outro lado do oceano. E aqui não tem wi-fi. Aqui é a beira do rio. Não tem necessidade pra wi-fi. Ah, desgraça.
Por isso que meto meu livro de 500 e lá vai porrada páginas nessa
mochila todo dia. Com gosto de cheddar, cérebro derretido e, uau, tanto sol
que o Twix também derreteu, e um monte de gente estranha do lado falando
inglês, espanhol, francês, alemão, que língua é essa?, árabe, mandarim, ninguém
me entende. Não dá pra chegar em ninguém e falar “ei, meu chocolate derreteu e
aqui não tem wi-fi”. Então vamos ler um livro de 500 e lá vai porrada páginas, As Crônicas
de Gelo e Fogo – A Guerra dos Tronos, no qual a cada capítulo alguém fala
“winter’s coming” e eu realmente sinto inveja.
Acabo dormindo no banco com gosto de biscoito, caramelo e chocolate na
boca e os dedos melados de Twix derretido.
P.S. Relendo este texto, sete meses depois, percebo: cruzes, como era fútil.
P.S. Relendo este texto, sete meses depois, percebo: cruzes, como era fútil.