sábado, 9 de março de 2013

Martírio abstrato

Ruim é quando não há palavras para descrever absolutamente nada que eu quero descrever. Por isso que o abstrato me irrita. Gosto do concreto. Deve ser essa a causa de eu não gostar de descrever sentimentos, nem escrevê-los, embora as palavras sejam minha religião. As emoções são abstratas e o abstrato me parece espancável.

Eu espancaria o abstrato, se ele tivesse forma. Eu espancaria os sentimentos. Espancaria o indescritível. 

Ainda existem algumas coisas abstratas que se tornam concretas. Por exemplo, “violência”. É só um termo. Mas quando você espanca alguém, ele se concretiza. Mas não o que eu quero. Não consigo concretizar, em palavras, o que se passa na minha cabeça. Infelizmente.

Então acho que vou espancar travesseiros por aí.

"You're invisible now, you got no secrets to conceal"

A luz do sol de fim de tarde habitava o céu naquele dia. A cidade estava deserta, poucos barulhos eram decifráveis, e o vento soprava preguiçosamente, provocando assombrosos ruídos em brechas de portas e janelas. 

Uma figura oculta pela sombra do telhado permanecia sentada em uma cadeira de madeira, no terraço de sua casa. Não havia ninguém na rua, mas quem passasse não seria capaz de ver o pequeno sorriso estampado em seu rosto. Ele segurava um violão nas mãos, mas apenas brincava com as cordas, sem levar a melodia que chegava aos seus ouvidos muito a sério. Tinha um palito de dentes entre seus lábios, e às vezes o mordiscava.
Não sabia muito bem o que estava fazendo, ou o que fazer. Era apenas mais uma tarde livre; livre de trabalhos, de obrigações, de tarefas e até de pessoas e situações irritantes.  Não havia preocupações.

Ele era um cidadão responsável, mas ainda assim quase um eremita. Não sabia da vida dos outros e não queria ninguém na sua. Era somente um homem tranquilo, que não esperava muito dos outros e nem de si mesmo. Apenas erguia a voz em um “bom dia”, para não parecer rude, ou em um “obrigado” depois de receber o troco do dinheiro gasto com as compras quinzenais.

Não sabia porque tinha um sorriso estampado no rosto. Não sabia o motivo pelo qual a melodia perdida parecia tão singela e cheia de significados. Chegou a supor que era apenas o belo dia que fazia seu humor tão bom.

Mais uma vez o vento soprou, mais uma vez a porta da casa bateu. Ele não se assustou, e pouco se moveu. Apenas riu para si mesmo por poucos segundos ao perceber que havia deixado as chaves do lado de dentro, mas então ficou sério ao lembrar da existência da porta dos fundos.

Sem aventuras.

O sol se escondia e o céu tomava uma cor arroxeada, mas já escura. O tempo estava ficando frio. Se fosse um dia comum, ele entraria para jantar e depois desabaria na cama. Mas estava feliz, sem nenhum motivo concreto, e isso significava que ele iria entrar e tomar uma boa dose da primeira bebida alcoólica que visse pela frente. Depois disso, ligaria a televisão e assistiria ao noticiário. Escutaria uma boa música, leria um bom livro, e depois de já tonto de sono, deitaria na cama para dormir. Mas antes, passaria alguns minutos pensando em alguma nova canção para compor.

As pequenas coisas haviam feito seu dia ser bom. Talvez algum pássaro houvesse pousado em sua varanda, talvez o preço do pão estivesse alguns centavos mais baixo… Ele não sabia. Mas estava satisfeito simplesmente por ter visto o sol se pôr.